STJ solta Mancha, mas juiz de MG manda prender por homicídio

STJ solta Mancha, mas juiz de MG manda prender por homicídio
jul 5 2026 Beatriz Oliveira

O que parecia ser o fim da linha para Douglas de Azevedo Carvalho, conhecido no meio criminal como “Mancha” acabou virando um loop burocrático. Em uma reviravolta que aconteceu em questão de horas na semana passada, o traficante mineiro viu sua liberdade concedida pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) e, logo em seguida, cassada pela própria Justiça de Minas Gerais.

A confusão começou quando o ministro Messod Azulay Neto autorizou a soltura de Douglas com base em medidas cautelares menos severas que a prisão. Mas antes que as grades da Penitenciária de Francisco Sá se abrissem, outro juiz entrou em cena. O resultado? Ele continua trancado, agora sob nova acusação.

A manobra judicial que travou a saída

Aqui está o detalhe crucial: tudo girava em torno de duas decisões judiciais colidindo no mesmo instante. Na quarta-feira, 1º de julho de 2026, o juiz Rodrigo Heleno Chaves, da 4ª Vara de Tóxicos de Belo Horizonte, já havia assinado o alvará de soltura cumprindo a ordem do STJ. A lógica era clara: Douglas tinha residência fixa, vínculos familiares e, segundo a defesa, uma vida econômica lícita.

Mas então veio a quinta-feira, 2 de julho. O juiz Roberto Oliveira Araújo Silva, do 2º Tribunal do Júri de Belo Horizonte, decretou a prisão temporária de Douglas por 30 dias. E não foi por qualquer motivo menor. A justificativa foi a necessidade de continuidade das investigações sobre o assassinato de Paulo Roberto Ziviani Rodrigues, ocorrido em 2018.

Essa decisão bloqueou fisicamente a execução da soltura anterior. É como se a porta tivesse sido destrancada, mas alguém fechasse a janela imediatamente depois. Para a família e para os advogados, a sensação é de incerteza constante. Para as autoridades, parece ser mais uma peça encaixada no tabuleiro.

Quem é realmente o "Mancha"?

Douglas de Azevedo Carvalho tem 34 anos e é apontado pelas autoridades como uma das lideranças mais perigosas do tráfico nacional e internacional. Ele é aliado direto do Primeiro Comando da Capital (PCC) e consta na lista de procurados do Ministério da Justiça há tempos.

O que chama a atenção, porém, é o contraste entre seu perfil criminoso e seus ativos legais. A defesa conseguiu provar judicialmente que ele é sócio majoritário da Subzero Delivery Bebidas e Derivados Ltda., detendo exatamente 60% das cotas da empresa. Essa "atividade econômica lícita", somada ao fato de ser pai de três crianças, foi o argumento central usado pelo ministro Messod Azulay Neto para justificar a troca da prisão preventiva por medidas como tornozeleira eletrônica e entrega de passaporte.

É estranho, não é? Um homem acusado de organizar rotas internacionais de cocaína também gerencia entregas de bebidas. Mas nos tribunais, documentos falam alto.

Da Bolívia para as grades de Minas

Antes de chegar a esse impasse judicial, houve uma caçada internacional. Douglas estava foragido desde novembro do ano passado, escondido em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. A captura só ocorreu em março de 2026 — embora alguns vídeos na internet sugiram datas diferentes, o consenso jornalístico aponta para o dia 15 de março.

A operação foi um trabalho conjunto impressionante. A Draco 2 (Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas) da Polícia Civil de Minas Gerais trabalhou lado a lado com a Delegacia DRE da Polícia Federal e a Polícia Nacional Boliviana. Eles o encontraram em um condomínio de luxo, dentro de uma mansão avaliada em R$ 15 milhões. Sim, quinze milhões de reais. O nível de conforto dele enquanto fugitivo era digno de um executivo de multinacional, não de um bandido comum.

Após a prisão, um jato da Polícia Federal voou diretamente para Belo Horizonte, encerrando meses de fuga. Agora, ele está de volta ao Norte de Minas, mas a história não acabou lá.

O caso do homicídio de 2018

O caso do homicídio de 2018

A razão pela qual Douglas permanece preso não é apenas o tráfico. É o sangue. O inquérito que levou à nova prisão temporária investiga a morte de Paulo Roberto Ziviani Rodrigues, acontecida há oito anos. O juiz Roberto Oliveira Araújo Silva argumentou que há indícios concretos da participação de Douglas nesse crime e que a presença física do acusado é indispensável para esclarecer detalhes que ainda estão nebulosos.

A polícia civil havia pedido prisão preventiva neste caso específico, mas o magistrado optou pela prisão temporária inicialmente. Isso significa que, pelos próximos 30 dias, as diligências serão intensificadas. Se os investigadores conseguirem provas robustas, essa medida provisória pode se tornar definitiva. Se não, a teoria é que ele possa voltar a discutir sua liberdade, sempre sob a sombra das acusações de tráfico.

Esse cenário revela uma tensão crescente entre os tribunais superiores e as varas regionais. Enquanto o STJ foca em garantias individuais e proporcionalidade das penas, as cortes locais muitas vezes priorizam a eficácia imediata das investigações policiais. Para o público geral, isso gera a impressão de que as regras mudam dependendo de quem segura o martelo.

Perguntas Frequentes

Por que o STJ soltou o Mancha se ele é um traficante perigoso?

O ministro Messod Azulay Neto considerou que a prisão preventiva não era mais necessária porque a defesa comprovou que Douglas tem residência fixa, vínculos familiares estáveis (é pai de três filhos) e atividade econômica lícita como sócio de uma empresa de bebidas. Com base nisso, optou-se por medidas alternativas como tornozeleira eletrônica e proibição de sair do país.

Qual é o motivo da nova prisão decretada em Minas Gerais?

A nova prisão temporária de 30 dias foi decretada pelo juiz Roberto Oliveira Araújo Silva devido a investigações sobre o homicídio de Paulo Roberto Ziviani Rodrigues, ocorrido em 2018. O magistrado entendeu que a presença de Douglas é essencial para esclarecer indícios de sua participação nesse crime específico, independentemente das acusações de tráfico.

Onde foi presa o Mancha na Bolívia?

Douglas foi capturado em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, em março de 2026. Ele estava hospedado em um condomínio de luxo, especificamente em uma mansão avaliada em R$ 15 milhões. A operação contou com inteligência compartilhada entre a Polícia Civil de MG, a Polícia Federal brasileira e a polícia boliviana.

Ele vai ficar preso para sempre ou pode ser solto novamente?

No momento, ele está sob prisão temporária por 30 dias para fins investigativos no caso de homicídio. Ao final desse prazo, o juiz poderá converter a medida em prisão preventiva se houver provas suficientes, ou revogá-la. No entanto, considerando seu histórico e o vínculo com o PCC, a permanência na prisão é considerada provável pelas autoridades.

Qual a diferença entre a decisão do STJ e a do juiz de MG?

O STJ analisou o processo principal de tráfico e lavagem de dinheiro, focando nas garantias constitucionais de liberdade diante dos ativos lícitos do réu. Já o juiz de Minas Gerais atuou em um inquérito distinto (homicídio), onde a necessidade de cooperação do acusado com a investigação prevaleceu sobre o direito à liberdade momentânea, criando um conflito processual que manteve Douglas preso.