A XP Investimentos, uma das maiores corretoras do Brasil, lançou na última quinta-feira, 23 de abril de 2026, um relatório que deixa claro: o primeiro trimestre de 2026 (1T26) será um momento difícil para a JBS. Os analistas Leonardo Alencar e Pedro Fonseca projetam uma compressão significativa nas margens operacionais da gigante de proteínas, com exceção da unidade JBS Brasil. A expectativa é de receita líquida de R$ 112,6 bilhões, uma queda de 1% em relação ao mesmo período do ano anterior e 8% na comparação sequencial.
O cenário dos números: queda no Ebitda e fluxo de caixa
O dado mais impactante vem do lucro operacional ajustado. O Ebitda ajustado deve atingir apenas R$ 5,8 bilhões, representando uma queda brutal de 35% ano a ano e cerca de 37% frente ao trimestre anterior. Além disso, a empresa enfrentará um "cash burn" (consumo de caixa) de aproximadamente R$ 3,2 bilhões durante o trimestre. Embora esse número pareça alarmista à primeira vista, os especialistas da XP destacam que isso está alinhado com a sazonalidade típica do início do ano no setor de carne.
Mas aqui está o ponto crucial: os analistas acreditam que este trimestre marca o "piso" dos resultados da companhia em 2026. Em outras palavras, a situação tende a melhorar a partir de agora. Como afirmaram no relatório: "Acreditamos que o primeiro trimestre deve marcar o piso dos resultados da companhia em 2026, e uma eventual fraqueza das ações pode abrir oportunidades à medida que ganhamos maior visibilidade sobre os ciclos de proteínas ao longo do ano".
USA Beef e PPC: os grandes desafios internacionais
Não é surpresa para quem acompanha o mercado que as operações internacionais estão sob pressão. A divisão USA Beef enfrenta condições desfavoráveis no ciclo pecuário norte-americano. A previsão é de que ela registre sua menor margem histórica para um primeiro trimestre, estimada em -3,0%. Isso ocorre devido à pressão nos spreads (diferença entre preço de compra e venda) e paralisações industriais após iniciativas de expansão de capacidade.
Já a Pilgrim's Pride Corporation (PPC), a unidade de frangos da JBS nos EUA, também não escapou ileso. Os analistas projetam uma margem de Ebitda ajustado de 7,5%, descrita como a mais fraca desde o primeiro trimestre de 2024. O Ebitda ajustado da PPC deve ser de US$ 305 milhões, uma queda de 22% na comparação anual e 16% abaixo do consenso do mercado. É um sinal claro de que o ambiente competitivo nos Estados Unidos continua hostil.
A resiliência da Seara e o destaque da JBS Brasil
No segmento de aves e alimentos processados, a Seara deve registrar reduções de margem em linha com padrões históricos para o início do ano. Apesar das dificuldades no mercado interno brasileiro, a XP nota que os mercados externos permanecem resilientes, ajudando a equilibrar o desempenho desta unidade. É um exemplo clássico de como a diversificação geográfica pode atuar como amortecedor em tempos de crise doméstica.
Por outro lado, a unidade JBS Brasil surge como a única exceção positiva. Ela é a única divisão que deve mostrar melhoria de margem na comparação anual, beneficiando-se de spreads de exportação ainda favoráveis, apesar do aumento nos preços do gado no país. Enquanto o resto do grupo sofre com a volatilidade global, a operação brasileira mantém seu foco nos mercados externos, onde as condições são mais benignas.
Oportunidades de compra e o futuro em 2026
Apesar das projeções negativas para o 1T26, que devem pesar sobre o preço das ações no curto prazo, a XP Investimentos identifica janelas de oportunidade. A expectativa é que a clareza sobre os ciclos globais de proteínas aumente nos próximos meses, permitindo uma recuperação da visibilidade dos números financeiros da JBS. A gestão do ciclo de caixa, especialmente quanto a estoques e contas a receber, será crucial para conter pressões adicionais sobre os níveis de alavancagem.
Os analistas enfatizam que, embora não haja catalisadores imediatos e as incertezas sobre o ciclo pecuário nos EUA continuem pesando, espera-se uma melhora gradual ao longo de 2026. Fatores como a possível inclusão da empresa em índices internacionais podem ter impactos positivos. A perspectiva otimista da XP vê este momento como potencialmente representando o fundo do poço para os resultados de 2026, com uma recuperação materializando-se conforme o ano progride.
Perguntas Frequentes
Por que a XP Investimentos acredita que o Q1 de 2026 é o pior momento para a JBS?
Os analistas apontam a combinação de fatores sazonais, como a compressão de margens em quase todas as divisões operacionais (exceto JBS Brasil), a pressão no ciclo pecuário dos EUA e o alto consumo de caixa (R$ 3,2 bilhões). Eles consideram que esses desafios atingirão seu pico neste trimestre, criando um "piso" a partir do qual os resultados podem começar a se recuperar gradualmente ao longo do ano.
Qual é a situação específica da divisão USA Beef?
A USA Beef enfrenta um cenário particularmente desafiador, com projeção de margem negativa de 3,0% no primeiro trimestre, a menor já registrada para este período na história da unidade. Isso deve-se às condições desfavoráveis do ciclo de gado na América do Norte, pressão nos spreads e paralisações industriais recentes após expansões de capacidade.
Como a unidade JBS Brasil se compara às demais no 1T26?
Diferentemente das outras divisões, a JBS Brasil é a única prevista para apresentar melhoria de margem na comparação anual. Isso ocorre porque ela beneficia-se de spreads de exportação favoráveis, compensando parcialmente os desafios do mercado interno brasileiro e o aumento dos preços do gado local.
O que significa o "cash burn" de R$ 3,2 bilhões para a saúde financeira da JBS?
Embora seja um valor significativo, a XP Investimentos destaca que esse consumo de caixa está alinhado com a sazonalidade típica do início do ano. No entanto, a gestão eficiente do capital de giro (estoques e recebíveis) será crucial para evitar que essa saída de recursos pressione excessivamente os níveis de endividamento da empresa.
Há alguma oportunidade de investimento identificada pela XP para as ações da JBS?
Sim. Os analistas sugerem que qualquer fraqueza nos preços das ações decorrente dos resultados fracos do Q1 pode abrir oportunidades de compra. A visão de longo prazo é otimista, esperando-se melhora gradual nos resultados ao longo de 2026 à medida que a visibilidade sobre os ciclos globais de proteínas aumenta e possíveis inclusões em índices internacionais ocorrem.